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O planeta esfriou

O planeta esfriou

Por: Daniela Redemske, Advogada

O planeta esfriou, mas não estou falando somente dos abraços e presenças entre as pessoas, estou falando do aquecimento Global

Você já deve ter visto uma série de notícias sobre o comportamento de animais no planeta desde o início da pandemia do COVID-19, casos em que eles estão circulando pelas cidades. Convidamos a advogada Daniela Redemske, ela vem montado um estudo sobre o caso, ela vai contar um pouco sobre esse legado.

O que aprendemos de outros legados?

Trecho de jornal da época da gripe espanhola (Foto: Reprodução da internet sem fonte conhecida/Divulgação)

Epidemias de vírus não são novidade na história da humanidade, variando apenas a estrutura do patógeno, origem e dimensão da infecção. A pandemia de gripe mais repercutida na história recente da humanidade ficou conhecida como gripe espanhola ou gripe de 1918 e teve como agente o vírus influenza H1N1.

De janeiro de 1918 a dezembro de 1920 a gripe espanhola infectou em torno de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época e estima-se que o número de mortos possivelmente tenha chegado até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade, matando mais que as duas guerras mundiais juntas.

Pandemias no passado

Importante referir que a pandemia do passado não começou na Espanha, apesar de seu nome. O que ocorre é que esse país era um dos poucos que contava com imprensa relativamente livre, sendo uma das poucas a noticiar o aumento do número de casos e de mortes, o que gerou esse estigma que perdura até hoje.  Quanto à origem, não se sabe ao certo onde foi o início do problema, mas a maior suspeita recai sobre Kansas, nos Estados Unidos.

Ao que nos importa é que em 1918 a população da terra era estimada em 1,9 bilhões e que nem se imaginavam os efeitos da globalização atual com a interligação intensa de todos continentes através de inúmeros voos e navegações. E mesmo assim a gripe se espalhou por todos continentes em 1918.

Imagina-se que tenha contribuído para a disseminação da gripe o retorno dos soldados às suas casas após o término da guerra.

No interim entre a gripe espanhola e a covid-19, outras três pandemias ocorreram: Gripe Asiática em 1957, Gripe de Hong Kong (H3N2) em 1968-1969 e Gripe Suína (H1N1) em 2009.

Considerando a história e pesquisas científicas, a ocorrência de novas pandemias é esperada. Só não se sabe quando, onde irá iniciar, qual será o patógeno e consequente extensão da infecção.

Também há que se levar em conta que atualmente os países e continentes estão mais interligados do que nunca. Não só economicamente, culturalmente ou através da transmissão de dados, mas também mortalmente, estando aí o covid-19 para nos mostrar.

 

A chegada dessa nova epidemia era esperada

A pandemia do covid-19 é uma realidade, assim como seu impacto negativo, mas não se pode dizer que a chegada de uma epidemia seria surpresa.

O homem impacta o meio ambiente e como consequência patógenos são transmitidos da espécie animal para o ser humano que agride cada vez mais o habitat natural das demais espécies forçando a migração destas para proximidades de centros urbanos.

Ocorre que apesar da história não iludir sobre a probabilidade do surgimento de uma doença mortal capaz de se espalhar ao redor do mundo, o homem, com sua soberba, mitigou essa possibilidade e não se preparou para enfrentar uma epidemia de nível global, o que nos faz ter de correr contra o tempo e avanço da doença a fim de criar a mínima viabilidade de atendimento dos infectados através de um “achamento da curva de transmissão” por meio da imposição do isolamento social já utilizado quando da ocorrência da gripe espanhola.

 

O que vamos aprender com o COVID-19?

Precisamos aprender com os acontecimentos que por mais assustadores que possam parecer num primeiro momento, sempre nos trazem algum ensinamento se buscarmos um olhar mais abrangente da situação.

Considerando a relação de cada pessoa com o mundo, penso que a pandemia mostrará primeiramente que o homem não pode se considerar dono de um planeta em que ele é apenas mais um habitante. Temos que ter respeito pelo meio ambiente e não menosprezar a possibilidade do alastramento a nível mundial de uma doença mortal, ainda mais considerando o nível mundial da interação humana existente.

Além disso, cabe refletir que empatia e solidariedade são práticas necessárias não só durante momentos de crise, mas no dia a dia. O alastramento da pandemia deixou bem claro que não basta uma pessoa estar a salvo da contaminação e possuir os suprimentos necessários se as pessoas no entorno estiverem à mercê de infeção ou carentes do mínimo para sua subsistência. As pessoas, apesar de estarem em situações diversas, ainda estão vivendo a mesma realidade, ou seja, apesar de admitir-se que pessoas possam estar em “ondas diferentes”, ainda estão no mesmo “mar”.

O distanciamento social e a conectividade

Em decorrência da imposição de distanciamento social para frear a contaminação pelo covid-19, pessoas que sequer tinham intimidade com formas de conectividade virtual conheceram e aprenderam a se conectar através de inúmeras plataformas que, em solidariedade com o momento atual, disponibilizaram a utilização de seus benefícios ao público em geral.

Outro aspecto interessante que a pandemia impôs à sociedade foi a desaceleração do consumo em razão da necessidade de permanecer em casa, o que fez com que  redescobríssemos objetos que já possuímos ou reinventássemos antigos hábitos como consertar algo, plantar e acompanhar o crescimento de uma mudinha, ler livros que nos aguardavam há tempos, rever filmes ou mesmo apreciar o singelo ingresso de um raio de sol pelas frestas da janela.

A pandemia também reforçou a adoção do trabalho remoto que já crescia nos últimos anos. Em decorrência do covid-19, grandes empresas como Amazon, Facebook, Google e Microsoft incentivaram os funcionários a trabalhar remotamente. Às empresas que podem organizar suas estruturas e processos de modo a viabilizar o trabalho remoto, tal opção se tornou útil e eficaz, podendo ser uma oportunidade de reorganizar a forma como a prestação do serviço é entregue por seus colaboradores.

 

O COVID-19 e a desaceleração da poluição

Veneza

Na esteira do legado da desaceleração do consumo e do trabalho remoto, outro ponto a ser observado é o fato de que o isolamento social em muito reduziu a poluição. É de conhecimento público que a poluição do ar é causa impactante no número de mortes, estimando a Organização Mundial de Saúde uma taxa global de 7 milhões[1].

A desaceleração da economia trazida pela imposição de isolamento social em decorrência da pandemia fez regredir rapidamente a poluição do ar, a concentração de dióxido de carbono, a redução do ruído e trouxe uma melhoria na qualidade de vida nas cidades.

Cidades como São Paulo, Nova Delhi, Nova York e países como China e Itália registraram redução no nível de poluição após a adoção de medidas de contenção do covid-19 como a quarentena. O caso mais emblemático dos efeitos positivos da quarentena em relação ao meio ambiente foi a verificação da diminuição da poluição nos canais de Veneza que se mostraram límpidos após a diminuição do tráfego de embarcações.

Considerando os inúmeros legados da pandemia do covid-19, penso que a diminuição da poluição reflete as consequências de grande parte das medidas tomadas para conter o avanço do vírus.  Além disso, a diminuição da poluição demonstra que a mudança nos hábitos de consumo, a redução no uso de combustíveis fósseis e uma nova dinâmica na produção de bens e serviços pode produzir resultados duradouros e benéficos para a humanidade e o planeta.

Impacto cultural

Também não podemos ignorar que o vírus teve origem da interação humana com um animal e que as pandemias provenientes de zoonoses. Nada mais são que um reflexo das intervenções do homem no meio ambiente que, no anseio para se expandir, invade o terreno animal, como anteriormente pontuado.

Assim, anseio que o impacto do covid-19 seja cultural e impacte na construção de uma nova forma de ver o mundo, especialmente em relação ao meio ambiente, uma vez que a intervenção humana é causa de diversos problemas ambientais. Espero que quando as rédeas de nossa existência forem retomadas possamos reinventar a forma como lidamos com o mundo, atribuindo mais respeito ao trabalho (especialmente o científico), ao meio ambiente e às condições humanas.

Daniela Redemske, Advogada

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